sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Enfim a interatividade em Museus de Ciência

Em “Principios Fundamentales de la Museología Científica Moderna”, Wagensberg (2001) afirma que os museus de ciência são espaços dedicados a criar estímulos a favor do conhecimento e do método científico nos visitantes, e promover a formação da opinião científica dos cidadãos. E para atingir esse objetivo, é necessário que o visitante saia de uma exposição com uma maior capacidade de elaborar perguntas sobre determinado tema do que quando iniciou a vista. Uma boa exposição provoca uma mudança no visitante, por isso Wagesberg considera que o museu é um instrumento de transformação social.
Para esse autor os melhores estímulos para um cidadão se envolver com a ciência são os mesmos estímulos que estimulam um cientista na prática da ciência. Os museus devem, então, perceber os verdadeiros estímulos da prática científica para poderem planejar suas exposições.
Nos museus esses estímulos são provocados durante a interação dos visitantes com os objetos presentes no ambiente da exposição. Para Wagensberg (2001) as interações podem ser qualificadas da seguinte forma:
a) Interatividade[1] direta (Hands on).
b) Interatividade mental (Minds on).
c) Interatividade sócio-cultural (Heart on).
Em uma interatividade direta o visitante assume o papel de um cientista, investigando, experimentando, manipulando, controlando, etc. Já com interatividade mental é possível praticar a inteligibilidade da ciência, distinguir o essencial do acessório, sair do objeto do museu e associar as suas idéias com a vida cotidiana e com outros casos que pode corresponder à mesma essência.
Como a ciência é universal, mas a realidade onde ela se manifesta não, será possível observar que alguns comportamentos específicos dos visitantes estarão ligados à interações com seu grupo, sua cultura e suas emoções. Neste caso, trata-se da interatividade sócio-cultural.

“O centro de ciências proporciona às crianças uma experiência ao mesmo tempo solitária e social. Muitas fazem observações sozinhas para depois partilhar sua experiência com os colegas e, de forma geral, essa partilha e outros comportamentos cooperativos são dominantes. A interação social com seus pares é o comportamento que prevalece.” GASPAR (1993)

Segundo as autoras Gruzman e Siqueira (2007), é possível perceber que, cada vez mais, a relação museu-público torna-se uma temática presente nos diferentes fóruns de discussão preocupados com o alcance, abrangência e a qualidade de ações promovidas pelo espaço museal. Esse fato é justificado pelo aumento, ao longo da história, da preocupação com a educação e divulgação científica e o papel que os museus desempenham na compreensão pública das ciências. As autoras também destacam os estudos de Gohn (1999) sobre o tema da educação não-formal. Elas argumentam que a educação ganhou importância na era da globalização pelo elevado grau de competitividade que ampliou a demanda por conhecimentos e informação. É possível reconhecer que múltiplos espaços contribuem com o desenvolvimento de atividades no âmbito da educação não-formal.
Nos museus de ciências as exposições interativas, independente dos tipos de interatividade que elas possam promover, são muito comuns seguindo os modelos dos sciences centers, e podemos identificar desde a interatividade direta através de um acionamento de botões que desencadeiam o funcionamento de aparelhos, até situações de interatividade mental nas quais o visitante pode estabelecer um verdadeiro diálogo com os objetos de exposição criados especificamente para exibir um fenômeno, pois podem controlar alguns dos parâmetros que determinam o comportamento do fenômeno exposto.
Porém, se há uma preocupação em promover a apropriação de conceitos, a interatividade não pode ser a uma única garantia de êxito. Ela precisa estar atrelada a uma concepção clara de intervenção didática que pode ser estabelecida nos museus de ciências. As exposições devem perseguir a efetividade nas intenções educativas, ou seja, procurar criar ambientes nos quais os visitantes possam compatibilizar suas concepções em relação ao saber científico.
Os museus de ciências são percebidos não somente como um local de lazer, mas também como espaços educativos, onde as comunidades se encontram e se expressam, e têm a possibilidade de viverem situações de aprendizagem livre de formalidades. O sucesso do papel educativo em um museu depende, dentre outros fatores, da eficiência da comunicação entre o museu e o visitante. Uma das maneiras de estabelecer esta comunicação é através da interatividade entre os objetos de exposição e o visitante, e esta se encontra diretamente ligada à valorização da dimensão educativa nestes espaços (NASCIMENTO, COSTA e AMARAL, 1999).
Foi possível percebermos através de nossa revisão bibliográfica, que não há muitos trabalhos de pesquisas publicados sobre o papel educativo interatividade em museus de ciência. Apesar de alguns trabalhos tratarem do conceito de interatividade nesses ambientes educativos, não há um consenso na forma como se utiliza esse conceito para avaliar o processo ensino-aprendizagem.
“Deve ser ressaltada, contudo, a ausência de consenso quanto ao conceito de interatividade, particularmente no âmbito das exposições de divulgação científica. Velarde (1992, p. 662) qualifica de “interativos” quaisquer objetos ou aparatos dependentes de uma ação (eletrônica ou mecânica) do visitante para seu funcionamento.” (LOUREIRO, 2007, p. 3)
“Lourenço (2000, p. 61), por sua vez, denomina “participativos” os objetos que solicitam qualquer tipo de ação dos visitantes, ressaltando a possibilidade de diferentes graus de participação. Adverte que o termo interatividade seria importada do campo da informática e implicaria “possibilidades teoricamente infinitas (contínuas) de reciprocidade”.” (LOUREIRO, 2007, p. 3)

No entanto, nos propomos a realizar nesse trabalho um ensaio para o conceito de interatividade, com a intenção de contribuir para a construção de um quadro teórico e metodológico de análises de práticas educativas em espaços não escolares, em uma perspectiva sócio-interacionista.

“Uma abordagem comportamentalista restrita, limita o "ato da visita" à aquisição temporal de conceitos sem levar em conta noções como interação, apropriação e criação de significado. Por outro lado, uma abordagem sócio-interacionista considera o ato de visita desde o momento onde o grupo escolhe uma opção de lazer até o retorno ao lar e as lembranças da visita alguns dias, semanas ou meses depois.” (NASCIMENTO e COSTA, 2002)
[1] Nesse trabalho optamos por considerar o conceito de interatividade como uma qualificação quanto ao tipo de interação que pode ocorrer entre objetos presentes em um ambiente da exposição de um museu e os sujeitos presentes nesse mesmo ambiente.

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